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O JUDÔ

O judô é uma arte marcial Japonesa criada no ano de 1882, na época de transição entre a era Edo e a restauração Meiji (Contagem de anos, baseado no tempo de Reinado dos imperadores japoneses). Foi nesse período que o Japão começou a abrir-se para o mundo, nessa dinâmica de transformações e inovações radicais, os japoneses ficaram muito interessados por modernizar-se e adquirir a cultura ocidental. E com isso, tudo que era considerado tradicional passou a ser colocado de lado, chegando a ser praticamente esquecido. Entre eles, a arte marcial Japonesa, o jujutsu.

Com esse esquecimento do povo japonês, os mestres do jujutsu perderam sua importância, e tiveram que buscar outras formas de sobreviver. Uns se dedicaram as lutas apostadas, e outros começaram a se apresentar em feiras e eventos. Foi também nesse período que chegou ao fim os dias dos samurais e dos shoguns (titulo militar presenteado pelo imperador).

Com a ordem proibindo o uso de espadas em 1871, o jujutsu chegou ao fundo do poço, assim como outras artes marciais, pois eram consideradas ultrapassadas demais para o mundo moderno. Mas esse desejo por modernidade foi ultrapassado, e começaram a surgir novas pessoas interessadas em reacender as lições deixadas pelos samurais. Dessa forma, começaram a emergir formas de artes marciais que possibilitassem se defender com as mãos vazias, mas com o mesmo espírito e conduta estabelecido pelo bushido (Código de conduta Samurai) e com isso o jujutsu foi recolocado na sua posição de arte marcial, tendo o seu valor reconhecido, principalmente pela polícia e pela marinha.

Apesar de sua indiscutível eficiência para a defesa pessoal, o antigo jujutsu não podia ser considerado um esporte, muito menos ser praticado como tal. Não havia regras tratadas pedagogicamente e nem mesmo padronizadas. Era tudo ensinado através da observação e da tentativa e erro. Os professores ensinavam às crianças os denominados golpes mortais e os traumatizantes e perigosos golpes baixos. Sendo assim, quase sempre, os alunos menos experientes, machucavam-se seriamente. E os maiores, por causa de sua força física, chegavam a literalmente espancar os menores e mais fracos. Tudo isso fez com que o jujutsu se tornasse, de certo modo, impopular entre as pessoas esclarecidas e que possuíssem um pouco de bom senso. Dessa forma, o jujutsu começou novamente a enfraquecer.

Baseado nesses inconvenientes, Jigoro Kano, um jovem que na adolescência se sentia inferiorizado sempre que precisava desprender muita energia física para resolver um problema, resolveu modificar o tradicional jujutsu, unificando os diferentes sistemas.

Kano estudou os estilos Tenjin Shinyo-Ryu e Kito-ryu de Jujutsu clássico, e quando finalmente dominou seus ensinamentos mais profundos, e terminou seu treinamento com um ávido interesse em outras formas de combate integrou o que ele considerou os pontos positivos destes com suas próprias idéias e inspirações. Ele estabeleceu um novo estilo de luta corporal, e também transformou o princípio tradicional Jujutsu de "derrotar a força através da flexibilidade" em um novo princípio de "máxima utilização eficiente da força física e energia mental". O resultado foi um novo sistema teórico e técnico que Kano sentiu mais adequadas às necessidades das pessoas modernas.

Pessoa de alta cultura geral, ele era um esforçado cultor de jujutsu. Procurando encontrar explicações científicas aos golpes, baseados em leis de dinâmica, ação e reação, selecionou e classificou as melhores técnicas dos vários sistemas de jujutsu, dando ênfase principalmente no ataque aos pontos vitais e nas lutas de solo do estilo Tenshin-Shinyo-Ryu e nos golpes de projeção do estilo Kito-Ryu. 

Inseriu princípios básicos como o do equilíbrio, gravidade e sistema de alavancas nas execuções dos movimentos lógicos. Estabeleceu normas a fim de tornar o aprendizado mais fácil e racional. Idealizou regras para um confronto esportivo, baseado no espírito do ippon-shobu(luta pelo ponto completo). 

Procurou demonstrar que o jujutsu aprimorado, além de sua utilização para defesa pessoal, poderia oferecer aos praticantes, extraordinárias oportunidades no sentido de serem superadas as próprias limitações do ser humano.

Jigoro Kano tentava dar maior expressão à lenda de origem do estilo Yoshin-Ryu (Escola do Coração de Salgueiro), esta se baseava no princípio de “ceder para vencer”, utilizando a não resistência para controlar, desequilibrar e vencer o adversário com o mínimo de esforço, Diz a lenda que um médico e filósofo japonês, Shirobei-Akyama, estava convencido que a origem dos males humanos seria resultado da má utilização do corpo e do espírito. Deste modo partiu para estudos de técnicas terapêuticas chinesas, estudou o princípio do taoísmo, acupuntura e algumas técnicas de wushu, luta chinesa que usava as projeções, as luxações e os golpes. Quando Shirobei retornou ao Japão passou a ensinar seus discípulos o que havia assimilado do princípio positivo da filosofia taoísta, tanto na medicina como na luta, ou seja, ao mal ele opunha o mal, à força, a força.

No entanto este princípio só se aplicava a doenças menos complexas como em situações fáceis de lutas, ao enfrentar um oponente mais forte não dava resultados. Assim, seus discípulos o abandonaram e ele perplexo retirou-se para um pequeno templo e por cem dias meditou. Durante este espaço, tudo foi colocado em questão, a filosofia chinesa ying e yang, a acupuntura e por fim todos os métodos de combate, na medida que “opor uma ação a outra ação não é vantajoso a não ser que a minha força seja superior à força adversa”.  Certo dia quando passeava no jardim do templo enquanto nevava, escutava os estalidos dos galhos das cerejeiras que se quebravam sob ao peso da neve. Por outro lado, observou um salgueiro que com o peso da neve curvava os seus ramos até que a neve era depositada no solo e depois retornava a sua posição inicial. Isso o trouxe a ideia da suavidade.

O que Kano havia criado havia transcendido a mera técnica para abraçar um conjunto de princípios para o aperfeiçoamento do eu. Para refletir isso, ele substituiu jutsu (arte) na palavra "Ju-jutsu" com o sufixo Dô (caminho) para criar um novo nome para sua arte: judô Kodokan.

Os cultores profissionais do jujutsu não aceitavam tal concepção. Para eles o verdadeiro espírito do jujutsu era o shin-ken-shobu (vencer ou morrer, lutar até a morte).Em um combate o praticante tinha como o único objetivo à vitória. No entender de Kano, isso era totalmente errado. Uma atividade física deveria servir em primeiro lugar, para a educação global dos praticantes.

Por suas idéias, Jigoro Kano era desafiado e desacatado insistentemente pelos educadores da época, mas não mediu esforços para idealizar o novo jujutsu, diferente, mais completo, mais eficaz, muito mais objetivo e racional, e transformando-o num poderoso veículo de educação física.

A subida vertiginosa do Judô na preferência da população criou muitas rivalidades. Mestres de Ju-jutsu desafiavam o Kodokan quase diariamente, alegando que Kano havia deturpado a sua arte e acrescentado elementos estrangeiros. Para fazer frente a essas ameaças, o jovem líder Kodokan possuía um time de primeira, composto por antigos Mestres de Jujutsu que haviam se juntado ao Mestre Kano.

Entre esses seus alunos, quatro se destacavam: Tsunejiro Tomita, Sakujiro Yokoyama, Yoshikazu Yamashita e Shiro Saigo, chamados de Shitenno, "Os Quatro Senhores Celestiais", verdadeiros guerreiros que carregavam o nome do Kodokan em combates ferozes. Destes, o mais célebre era sem dúvida Shiro Saigo. Filho adotivo do Grande Mestre Tanomo Saigo, líder do Daito-Ryu Aikijujutsu, ele acabou rompendo com o Aikijujutsu para se juntar a Kano, revelando-se um dos melhores lutadores que o Japão já viu.

Em 1886 a Polícia Metropolitana de Tóquio realizou uma competição para escolher o sistema marcial que seria utilizado pela polícia. Representantes de Ju-jutsu, Kenjutsu e de diversos outros estilos de artes marciais se apresentaram para os combates. Entre eles estava o grupo do Mestre Hikosuke Totsuka, do Totsuka-Ha Yoshin Ryu, feroz adversário do Kodokan. Mestre Totsuka era considerado o maior Mestre de Ju-jutsu do último shogunato, anterior à Restauração Meiji. Mas todas as atenções se concentravam nos representantes do pequeno Dojô inaugurado a apenas quatro anos.

No dia 11 de junho de 1886, no santuário Yayoi, os combates finalmente se desenrolaram. Lembramos que nessa época não havia ainda as regras competitivas, sendo cada combate uma luta total até que um deles não pudesse continuar. Tomita e Yamashita venceram suas lutas, enquanto Yokoyama empatava numa luta histórica que levou 55 minutos, sem pausa.

Dos "Quatro Senhores Celestiais", faltava ainda Shiro Saigo. Ele enfrentou Entaro Ukiji, do Totsuka-Ha Shinto Ryu, um verdadeiro gigante frente ao diminuto Saigo. Quando a luta se iniciou, Saigo foi agarrado pelo kimono e lançado no ar. Para espanto da multidão, deu um giro completo e caiu em pé. Ele então agarrou Ukiji e o desequilibrou, girando-o num pequeno círculo. Era o lendário Yama Arashi ("Vento da Montanha"). Este era um golpe que somente Shiro Saigo conseguiu realizar perfeitamente e que segundo alguns autores era derivado do Aikijujutsu, sendo sua marca registrada. Seu oponente aterrissou com um estalo nas costas. Não satisfeito, levantou-se tonto e tentou atacar novamente Saigo, que terminou o serviço. Dos 15 combates disputados, a Kodokan venceu 12 lutas, empatou uma e perdeu 2.

Essa aprovação pública foi o impulso que o Judô necessitava para galgar os altos degraus que a ele estavam destinados.

Após essa célebre competição, contra várias escolas de ju-jutsu, definitivamente ficou constatado o grande valor do Judô Kodokan. O resultado dessa jornada constituiu-se num marco decisivo na aceitação do judô, com o reconhecimento do povo e do governo que passaram oficialmente a prestigiar o Judô Kodokan. Depois da célebre vitória de 1886, como ficou conhecida, o Judô Kodokan começou a progredir com passos confiantes. A fórmula técnica do Judô Kodokan foi completada em 1887, enquanto a sua fase espiritual foi gradativamente elevada até a perfeição, aproximadamente, em 1922. Nesse ano a Sociedade Cultural Kodokan foi inaugurada e um movimento social foi lançado, com base nos axiomas Seryoku Zen’Yo (máxima eficácia) e Jita Kyoei (prosperidade e benefícios mútuos).

Em 1888 aconteceu outro campeonato do Departamento de Policia, houve a disputa entre a Kodokan e o estilo Tozuka-ha, do mestre Tozuka Hikossuke. Aconteceram dez lutas entre ambas as escolas, a Kodokan teve sete vitórias e três empates.Em conseqüências desses campeonatos o Kodokan elevou-se muito no conceito dos policiais em relação aos outros estilos de ju-jutsu, culminando com a contratação do Kodokan para dar aulas no Departamnto de Polícia.

Agora grande no Japão, Jigoro Kano desejava espalhar sua arte marcial para outros países, e com isso começou a dar palestras e a enviar seus discípulos por todo o mundo.

A imigração japonesa foi o fator mais importante para o surgimento do judô no Brasil. A influência exercida por lutadores profissionais representantes de diversas escolas de ju-jutsu japonês também contribuiu para o desenvolvimento do judô. O início do judô no Brasil ocorreu sem instituições organizadoras. Apenas na década de 1920 e início dos anos 1930 chegaram ao Brasil os imigrantes que conseguiram organizar as práticas do judô e kendô no país. Inclusive alguns senseis com vinculo com a kodokan chegaram a abrir academias no nosso país, mas que não deram certo e acabaram fechando.

A chegada dos primeiros professores-lutadores também deixou o seu legado. Dentre os pioneiros se destacaram, Mitsuyo Maeda e Soishiro (Shinjiro) Satake, alunos de Jigoro Kano. Eisei Mitsuyo Maeda, também chamado Conde Koma, chegou ao Brasil em 14 de novembro de 1914, entrando no país por Porto Alegre. Junto com ele chegaram Satake, Laku, Okura e Shimisu. Em 18 de dezembro de 1915 a trupe de lutadores chegou a Manaus, mas antes disso rodou o Brasil em demonstrações e desafios. Conde Koma se radicou em Belém do Pará, em 1921, enquanto Satake ficou em Manaus, onde ministrava aulas no Bairro da Cachoeirinha ainda na década de 20.

Maeda fundou sua primeira academia de judô no Brasil no Clube do Remo, bairro da cidade velha. A contribuição dos imigrantes japoneses que divulgaram o judô parece ter sido mais importante do que a contribuição de Conde Koma, e seus companheiros lutadores. Da chegada do Kasato Maru ao Brasil (1908) até a Segunda Guerra Mundial, os nomes e as práticas se confundiam. Encontra-se na literatura judô, jiu-do, jujutsu, jiu-jitsu e ainda jiu-jitsu Kano, muitas vezes para designar a mesma prática. A institucionalização do esporte, inicialmente organizada pela colônia japonesa, depois sob o controle da Confederação Brasileira de Pugilismo e finalmente a criação da Confederação Brasileira de Judô foram os passos para a diferenciação das práticas de luta e a organização do judô no país.

 

 

ESSE TEXTO FOI ESCRITO ATRAVÉS DE PESQUISAS PROPRIAS, E FORAM UTILIZADOS TRECHOS DE TEXTO DA CBJ, E DE PESQUISAS DOS Srs. Pablo Peres; Flavio Almeida; Elton Silva 

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